por Cláudia Piasecki

por Cláudia Piasecki
por Cláudia PiaseckiDesde os tempos mais remotos o ser humano sempre esteve em busca de aconchego, de afeto, de compreensão, admiração, de ser olhado, percebido, e amado. Essa busca é materializada pelo encontro amoroso, e é feita por todos nós, pois, como sugere a psicanálise, estamos em busca do "objeto perdido". Estamos numa época onde o encontro amoroso está cada vez mais escasso, no lugar do amor de investimento, de vínculo percebemos que a maioria das pessoas está em busca de relacionamentos passageiros, onde não é necessário se preocupar com o outro, pois presume-se que o outro também não deseja investir, ou construir um vínculo. O enamoramento está sendo sepultado, o romantismo, este é tachado de caretice, coisa de gente "grudenta". Mesmo assim, com toda essa aparente "frieza", essa falta de cuidado com o sentimento do outro (o que conta é a vontade, se quero ficar com alguém, não significa que amanhã essa vontade permanecerá, pois amanhã posso conhecer alguém diferente e não menos interessante) a grande maioria ainda anseia pelo encontro amoroso. Conhecer "aquela pessoa". Os tempos mudaram e os costumes também, a mulher é mais livre e bem como o homem está no "mercado relacional" com uma grande gama de possibilidades, e quando se tem várias possibilidades de escolha, o sentimento de solidão só aumenta, ao contrário do que a ideia de quantidade sugere, e o encontro amoroso torna-se impossível. Costumo dizer que tenho uma "teoria", as mulheres por mais que pareçam desinteressadas, ou "descoladas", "bem resolvidas", estão sempre dispostas a criar vínculo e namorar e/ou até casar. Quando uma mulher conhece um homem que lhe interessa de forma especial, por uma série de peculiaridades, ela estará sim disponível para o amor. Recentemente assisti ao filme "Amizade Colorida", com Justin Timberlake. Na trama o casal de amigos decide ter uma amizade com "benefícios". É claro que acabam se apaixonando, pois descobrem ter várias afinidades. Como o combinado era serem apenas amigos, (pois ambos já tinham passado por histórias de amor frustradas e não queriam mais sofrer) decidiram cada qual tomar seu caminho e conhecer alguém para namorar, mas aí já era tarde demais, estavam apaixonados. Para exemplificar "minha teoria", na história do filme é ela, que demonstra primeiro que não quer mais ser só amiga com "benefícios", se mostra interessada em compromisso, não que ele não esteja, mas ele cumpre aparentemente o combinado. Ela se sente usada e não compreendida, como na vida real acontece com a maioria das mulheres, que não entendem porque aquele rapaz bonito e gentil não liga mais para elas depois de dois ou três encontros. Os encontros amorosos estão cada vez mais difíceis de acontecer porque as pessoas estão muito individualistas e com medo de perder sua liberdade, e também porque as pessoas são extremamente narcisistas, querem alguém à sua altura e medida, ou seja, não aceitam as diferenças. Vão logo querendo mudar aquilo que incomoda e atrapalha no outro. Ora, Narciso não morreu justamente porque se apaixonou pela sua própria imagem (o Narciso se lança a si mesmo, e isso é mortal)? Não existe no indivíduo (o Outro), uma unidade que se compare ao "eu". Procurar o Outro é aceitar o Outro na sua diferença. Quando eu procuro a metade, procuro a mim mesmo. Nas relações amorosas procuramos "o ideal", mas sabemos que o ideal não existe, sendo assim, estamos infelizmente fadados a ter um final como o de Narciso (morrer simbolicamente para o enamoramento). Como diz Caetano Veloso em sua música "Sampa" : "...é que Narciso acha feio o que não é espelho...". Devemos tentar exercitar a empatia no amor, e não a destruição da imagem do Outro para o nosso deleite. Segundo Flávio Gikovate o anseio amoroso é muito simples: visa apenas ao estabelecimento de um vínculo sólido e sereno com outra pessoa, que, hoje, é escolhida para esse papel pelo próprio interessado. É possível ser livre, viver sua individualidade de forma saudável e usufruir de um encontro amoroso satisfatório e também saudável. Mas é claro, primeiro temos que estar dispostos a isso, e segundo temos que agir de acordo com nossas convicções, sem olharmos muito para os lados, pois os amigos, e as pessoas em geral, sempre tem um "conselho", ou uma ressalva quanto ao(a) seu (sua) companheiro (a). A pergunta que eu faço é: Você está feliz? Respondo: Então, siga em frente. Seja sozinho, ou acompanhado. ___________________________________________________________________ Cláudia Maria Piasecki Psicóloga Clínica CRP 08/10847 9856-8944 www.claudiapiasecki.blogspot.com
por Cláudia PiaseckiA paixão quando acontece nos surpreende com uma série de sensações que mal podemos controlar. Queremos estar perto do objeto da nossa paixão o tempo todo, tentamos controlar cada passo; a distância é um suplício, todos os encontros são de trocas intensas. Perde-se a razão, a fome, o sono. Mas, com o tempo tudo volta ao normal. Há, porém quem se vicie na euforia que esse sentimento provoca, como se fosse uma droga. A ciência explica a paixão como um estado mental que faz o cérebro liberar substâncias que transmitem sensação de prazer. Segundo Sigmund Freud, a paixão é uma forma de complementar o que falta em nós mesmos, ou seja, o que denominamos projeção. Projetamos em alguém aquilo que não temos, o objeto da nossa paixão é um ser aparentemente sem nenhum defeito, é aquela pessoa que chegou para nos salvar. Em sua origem semântica, a palavra paixão representa sofrimento pathos, do grego, e passio, do latim, significa suplício, tortura. A paixão se transforma em vício no momento em que a pessoa apaixonada não consegue retornar a normalidade após algum tempo, recobrando a razão, ela vive com intensidade esse sentimento, talvez por fragilidade, ou carência emocional, se tornando dependente da adrenalina da paixão. Segundo o psicólogo americano Albert Wakin esse estado patológico da paixão chama-se limerância. Ex-aluno de Dorothy Tennov--que cunhou o termo no final da década de 70 no livro Love and Limerence: The Experience of Being in Love (Amor e Limerância: A Experiência de Estar Apaixonado, sem edição em português)--, ele diz que a limerância é quando alguém fica preso na paixão. "É um estado quase psicótico, que debilita a razão, aliena. A pessoa não consegue sair dele e esse é o maior problema", diz. "Esse sentimento instável e insaciável provoca, inclusive, sintomas físicos semelhantes aos da síndrome do pânico e da depressão." Na visão da psicóloga Rosely Teixeira Gomes, a limerância é o estado da paixão levado ao extremo. "Não é mais quando você tem o desejo, mas quando o desejo te tem. É ficar escravo, perder o controle", diz ela. Ainda não se sabe o que realmente desencadeia esse estado doentio da paixão, segundo Albert Wakin, não há um padrão de comportamento. "O que sabemos é que uma pessoa pode ser perfeitamente capaz de ter relações saudáveis durante a vida, e, por algum motivo desenvolver a limerância com um parceiro específico", afirma. Wakin coordena estudos do cérebro para determinar se existe alguma alteração neurológica que justifique o comportamento. Para Rosely Gomes, esse desarranjo pode ser um sintoma da nossa insistência em perseguir incansavelmente um sentimento de felicidade que não existe. "Em vez de ficar presa a alguém, a pessoa fica presa à sensação de bem-estar que aquele estado provoca. O apaixonado vive um completo deslumbramento pelo outro e não quer perder essa sensação." Para a psicanalista Betty Milan, autora do livro Quem Ama Escuta, hoje o desejo de compromisso é muito mais presente do que na geração anterior--o que explica parte da pressão para encontrar um parceiro. Segundo a psicanalista, não é verdade que os jovens de hoje trocam de parceiros porque são intolerantes ou imediatistas. "O principal problema é a excessiva idealização do que uma relação representa na vida", diz Betty. As pessoas buscam uma relação dentro do seu ideal de perfeição, e um parceiro que se enquadre nesse ideal, para desta maneira mostrar para os outros que é bem resolvida. Sabemos que não existe relacionamento perfeito, nem pessoas perfeitas, e que o relacionamento por si só não traz garantia de felicidade. É necessário um investimento em vários sistemas da vida para se ter felicidade, pois para uma pessoa que centraliza todas suas expectativas de felicidade numa relação amorosa, quando esta não vai bem, nada fica bem, tudo desmorona. ________________________________________________________________ Cláudia Maria Piasecki Psicóloga Clínica CRP 08/10847